24.6.17


Ofício de amar 

 

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o
remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo


Al Berto


22.6.17



if you get there, be honest, respectful

 


Imagining My Man, Aldous Harding


27.3.17



may spring be like


 


Silly Symphonies - The Goddess of Spring (La déesse du Printemps), Disney, 1934



15.1.17

CAOSMONÁUTICA





Raptada é a paisagem
pela demência do fungo
o vagaroso abrir
de um guarda-sol de fogo.

Na boca derretendo
o atómico medronho
da indormida carne
já a doença somos.

   Lá vai o Mariner IV
   com electrónicos remos
   se vivermos 7 meses
   Evoé Baco veremos
   fotografias de deuses!

Aqui já foi o bosque
o hálito das águas
aqui o avião
teve cornos e patas
aqui achou o homem
o seu lúcido espaço
aves o preencheram
e engendrando no osso
a flor dos cosmonautas
os poros lhe romperam.

   Lá vai o Mariner IV
   com electrónicos remos
   se vivermos 7 meses
   Evoé Baco veremos
   fotografias de deuses!

De em pedra nos volvermos
em dócil agonia
oh caçadores de estrelas!
é o cão que vos guia.


in O Vinho e a Lira, Natália Correia
Imagem: williamklenk  

11.1.17

Nada fornece qualquer garantia a ninguém. Existimos em suspensão. Há muitas maneira de respirar e deixar de respirar. Temos os nossos ritmos. É preciso viver e morrer com eles.




in Photomaton & Vox, Herberto Helder


3.1.17



you, or me.

amplified.





Girl Interrupted, James Mangold

2.1.17



science vs poetry



30.12.16

2017 motto



Her, Spike Jonze

29.12.16



MANOBRAS DE OUTONO




Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-do-sol! Vamos esquecer
as cartas do dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.


O Tempo aprazado, Ingeborg Bachman
Imagem: autor desconhecido

4.8.16



queridos vizinhos de cima.

enough is enough. 




daqui a nada piro.






a conquista de cacela 


quero mais, mais, mais, mais e mais.
como quem nunca provou mel e quando prova...
mas no bom sentido.


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as praças fortes foram conquistadas
por seu poder e foram sitiadas
as cidades do mar pela riqueza
porém Cacela
foi desejada só pela beleza


Sophia de Mello Breyner Andresen



8.7.16



porque sim


 


Big Jet Plane, Angus & Julia Stone




3.5.16